sábado, 15 de dezembro de 2012

De pai para filho

Faz tempo que eu não me emocionava tanto. 
Assisti ao filme Gonzaga: de pai para filho e chorei, chorei, chorei. Parei de chorar, saí do cinema, fui para o carro e chorei, chorei, chorei. Cheguei em casa, entrei pela porta (que pela janela é difícil) sentei no sofá e chorei, chorei e chorei um pouquinho mais.

Que história bem contada, que atores bons, que direção, que ângulos de imagem, que diálogos, que emoção esse filme transmite. A história é real, e devo dizer que sempre que uma história é real, ou é anunciada como tal, crio uma expectativa superior em relação à obra. E nesse caso, minha expectativa foi totalmente preenchida e acrescentada, pois eu conhecia muito pouco da história do Gonzagão e Gonzaguinha, e sempre me perguntei o porquê de sua aura de tristeza profunda, mesmo quando ele cantava um sambinha dos mais felizes. Não tinha idéia do que ele havia passado em sua vida particular.

Realmente não acompanhei a vida do artista Gonzagão, muito menos do pai que ele foi (só um filho para atestar), mas adorei ver o crescimento e desenrolar de seu talento, como foi contado neste filme. Suas dificuldades financeiras que o atrasavam para o alcance do sucesso mas que também lhe motivaram a buscá-lo, assim como entraves morais da sociedade da época, como quando os donos da rádio em que ele começou a cantar não queriam ouvir sua cantoria mesmo que o público se empolgasse diante de sua música, já que se tratava de uma música folclórica, pouco admirada pelos críticos do momento. Inclusive seus bloqueios internos que o impediam de admirar a música de seu povo, música esta que lhe fez aprender a tocar o acordeão desde a infância, que lhe despertou para esse dom, mas que também lhe fez renegá-la, diante da miserabilidade que lhe trazia à tona a infância humilde, a falta de tudo, desde o que alimenta ao corpo até o que alimenta ao ego, mas nem por isso menos talentosa, vibrante ou alegre.

Os estados de  miséria e riqueza, apesar de antagônicos, produzem o mesmo efeito de entorpecer as pessoas, embotar sua visão de mundo, suas percepções das pessoas que as cercam e das necessidades reais de cada um. Um, pela ausência que provoca necessidade e te faz querer as coisas de forma imediata, sem notar outras maiores, mais estáveis e duradouras, mas que te faz compartilhar o pouco que tens com teu semelhante, como forma de aplacar a tua própria miséria. Outro, pela fartura que te impede de notar as necessidades alheias, as pequenas misérias das pessoas que te rondam e te espreitam, tornando-te insensível aos problemas dos outros e muitas vezes egoísta, ao menor sinal de perderes essa riqueza, de perderes tua segurança.

Assim como tudo na vida, podemos escolher olhar outras facetas da riqueza ou da miséria, como a alegria despertada por pequenas conquistas, e que provavelmente são muito mais passíveis de surgirem num ambiente de pobreza; os detalhes de escassez (que só a pobreza te faz ver) e que te tornam mais metódico ao esconder falhas, tapar furos, ou desenvolver a malandragem de ocultar erros e ressaltar proezas.
Na riqueza existe a possibilidade de se acessar mais informações, por haverem mais recursos de acesso como livros, teatro, cinema, viagens, lazer e outras formas de entretenimento que custam dinheiros preciosos, o que é inviável para quem não tem nem para o básico. Mas de nada valem os recursos sem o tutano que te faça meditar sobre as informações, por isso vemos tanta gente com grana e tão ignorante.

Enfim, este filme é uma pérola cinematográfica e não me considero capaz de descrevê-lo tal como ele foi feito: brilhantemente. Até porque a impressão de cada pessoa é diferente e subjetiva e acompanha o juízo de cada ser, mas minha impressão neste filme é de que devemos sempre tentar dialogar com nossos familiares, ou com àqueles de quem guardamos mágoas, e se não expressarmos tudo aquilo que nos incomoda a essas pessoas que nos fazem nos sentirmos tão mal, seremos ultrapassados pela torrente de atitudes que essas pessoas invariavelmente cometem e nos deixam tão magoados. Não calar-se, não quietar-se, eis o segredo. Enfrentar, esbravejar e mandar à merda se preciso for, mas não ficar quieto, jamais. Dizer o que te incomoda, nem que isso seja produto da tua cabeça. A pessoa que me convença de que tudo que ela fez é produto meu, e não das suas atitudes.

Também preciso dizer que me emociona o fato de alguém demonstrar sentir amor tão grande por um pai que parecia não amá-lo, como o Gonzaguinha por seu pai.
Amar alguém que nos ama é fácil, tranquilo e no mínimo esperado. Agora: amar alguém que não se importa contigo, se estás bem ou mal, que parece mais querer te ver pelas costas, sendo teu próprio pai, ou quem sabe tua mãe... isso é complicado.

Que filme! Recomendo aos que gostam de uma bela história de amor.

all you need is love

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Sonhos molhados

Sonhos são bizarros. E são reais.

Você sonha, acorda, lembra da situação e pensa: " mas foi tão real... ufa... foi só um sonho.". Então, no decorrer do dia você tenta relembrá-lo e lá se foi ele, pras cucuias. O que restou foram leves lembranças.

Os sonhos parecem ser projeções de nossa mente, medos e inseguranças reais que exercitamos em nossas mentes diariamente e que, ao dormir, vivemos intensamente em formato de ópera. Mas tem uns sonhos que são mucho loucos, eu nem chegaria a pensar tais coisas na verdade. Eu nem pensaria que pensei nisso, oras! Aí, descubro feliz que minha mente é criativa pacas, mas pena que ela só se manifesta quando eu tô dormindo... provavelmente por isso muitos cientistas usam o método de entrar em estado de sonolência para terem ideias...

Esse negócio da mente vai muito além do que se cogita. A mente te manda fazer coisas que nem tu mesmo te dá conta, como se defender quando se é atacado ou atacar quando nem mesmo se é agredido. Não existem regras, existem mentes que aprenderam a reagir cada uma à sua forma, à luz de sua vivência. Cada um tem a mente que desenvolveu, isso é óbvio, mas não dá pra arriscar qual vai ser a atitude dessa ou daquela pessoa, nem a nossa mesma... Na realidade vivemos tenteando os outros. Eu tenteio aqui, o outro tenteia lá. Dependendo do meu objetivo ou o da pessoa, não tenteamos nada, esperando a contra-resposta e todo mundo fica paradão que nem bobo, vendo um terceiro tentear e se dar bem.

Às vezes estamos tão absortos em nossos argumentos que não vemos o óbvio. Ele dança no nosso nariz, nos chama de otários e então já não é mais o mesmo quando resolvemos acordar do estupor em que nos encontramos. O óbvio então é outro óbvio. Ele se transformou, e foi modificado pelas nossas atitudes e as atitudes dos que receberam as nossas. Nossas projeções, acredito eu, baseiam-se nesse jogo de tentear aqui e ali, pensar como tudo ficaria se tomássemos essa atitude ou aquela outra, como no jogo de xadrez em que várias jogadas são possíveis e tem suas consequências boas ou ruins. Mas isso é questão de prever movimentos, e existem regras para o movimento de cada personagem no xadrez. Com pessoas, podemos até pensar que existem regras morais, éticas ou sociais, mas cada pessoa age como melhor lhe manda a mente. Como melhor lhe parece a ética, sua ética. Podemos tentear movimentos, mas prever com inteira certeza, jamais.

Na verdade quando espero um movimento, estou projetando ele na minha mente: ó, eu vou fazer isso e aquela pessoa vai fazer aquilo, com base em todas impressões que guardei daquela pessoa. Então eu reajo antes que a pessoa aja, e aí dá a merda. Parece assim: se eu espero que a pessoa faça o bem e ela caga (usando de termos chulos, método mnemônico criado por Mônica) eu só vou esperar/projetar que ela cague para sempre. Mas aí me lembro do Pai Nosso, de perdoar os outros, blá, blá, blá, e tento várias vezes dar a chance de ela não cagar novamente mas ela segue cagando, então eu decido que não vou mais dar a chance de ela cagar comigo. Ponto.
Sabendo de antemão com quem eu lido, após cagadas sucessivas, simplesmente elimino esse indivíduo do meu rol de pessoas. Sim, porque só Cristo pra oferecer todas faces... e não sei se adiantou não, arrisco que se ele voltasse hoje, faria diferente. Paz e amor, sim, ser babaca para todo o sempre de alguém que se nega a aprender, não!

Como eu já espero o "mal" daquela pessoa, por que ela é famosa por cagar, eu já nem me esforço em dar chances. Isso é engraçado, né? Por que, será que essa pessoa age como o esperado, ou será que eu espero tanto que ela cague que eu projeto isso em minha mente e minhas atitudes ensejam essa pessoa a cagar? Será que na verdade ela está cagando porque eu espero isso dela e na verdade essa cagada não é tão molhada assim? Talvez uma análise laboratorial resolva. É cocô ou não é?
Talvez seja tudo um mal entendido, cagadas por cagadas, cada um tem a sua. Guaibão que o diga.
Tudo é questão de ponto de vista... ou seria de privada?

Acho que tô ficando recursiva. E o sonho não acabou...

tentando enxergar o óbvio

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Mídia marrom cocô, pererecas e afins


Como eu gosto do silêncio.
A cabeça redemoinha, ainda mais se tomei café demais, quando faz silêncio. Mas me acalma demais o som do nada.

E nessas de silenciar, tenho essa mania de fantasiar a realidade de quando em vez.
Em certos momentos, quando andava mais de ônibus e ouvia minhas músicas, me imaginava num clipe. Daqueles bem melancólicos, tipo If God Was One of Us, com aquela cara de sofrimento e esperança ao mesmo tempo, imaginando as câmeras me filmando enquanto eu fazia caras e bocas de gatinha manhosa, pensando algo como: "será que um dia vou ter que ficar duas horas nesse ônibus? Será que um dia vou cantar de verdade? Será que um dia vou estrelar um clipe real, meu? Será..." e aí eu descia no ponto.

Mas esse devaneio misturado com loucura (creio eu) me ajudava a continuar aguentando algumas penas da vida, como ter que acordar regularmente às seis e algo da matina (isso é uma pena para mim), sentir o cheiro ruim dos traseiros alheios no ônibus e ter de enfrentar a monotonia dos dias e das rotinas, todas. Como ter que bancar o sério no trabalho, quando se quer rir de uma pessoa patética, que tenta te convencer de sua respeitabilidade, sua seriedade, quando se sabe que na real a pessoa não é nada daquilo que tenta aparentar. Como quando aquela menina, sua conhecida, tenta passar a imagem de profunda, filósofa, um ser espirituoso e espiritual, que escreve palavras inteligentes e profundas no site de relacionamento mais famoso do momento, sempre citando frases famosas e inteligentíssimas de autores que ela nunca leu, mas que na verdade está sempre caçando um homem, desesperada por uma transa, e usa todos esses artifícios pseudo intelectualísticos para disfarçar seu ardor sexual e atrair uma presa. Nada contra o ardor sexual, e sim abaixo a hipocrisia. Como quando você quer espirrar no ônibus e segura até o finalzinho, daí dá aquele espirro grotesco, barulhento, meio animalesco, repulsivo, expulsando todas aquelas gotículas asquerosas e ranhentas por sobre os passageiros coitados. E isso não tem nada a ver com coito. 

E por que sonham as pessoas em serem famosas? Porque quando se é famoso, parece que tudo é permitido. Até dar uma cagadinha festiva e molhada na cabeça das pessoas (mas elas tem que aplaudir) é bonito. Porque a maior parte das pessoas se sujeitam a esses seres egocêntricos, malucos e vaidosos, que se dão o direito divinal de fazer o que querem, por que as pessoas permitem. Menos andar de ônibus. Isso é inadmissível para um famoso. 

Sonhar com ser famoso, ser adorado e aclamado é o sonho de 99% da população. O American idol, Fama, The voice, Ídolos, Youtube e Twiter não me deixam mentir. 

Então me vem à mente essa menina aí, Geise Arruda. Assanhadinha. Foi de cós para a faculdade, mostrar "as parte" para a galera. E ainda se fazendo de puritana: "ai, eu só queria usar minha sainha". Então ficou famosa. Por alguns dias.
Assim, ela decidiu, depois de todo alvoroto, que queria ser famosa ad eternum. Que isso estava em seu destino e que ela nasceu para mostrar suas partes. Afinal, só mostrando as pernas até a altura da virilha, já causou tanto rebuliço na mídia (internacional, inclusive), isso só pode se tratar de um sinal de talento. Está certo que sua fama é um lixo, porque para se ter fama, algo deve chamar a atenção das pessoas e comovê-las a ponto de quererem acompanhar as novidades propostas pela celebridade, mas essa moça aparentemente não sabe fazer nada: não tem uma beleza exótica, não produz nenhuma arte significativa, não é uma boa oradora, não tem parente famoso (não que isso seja uma qualidade), mas alguém poderia me dizer o que a destaca na multidão, então? O que é? O que faz? Do que se alimenta?

Viu?!  No meu desprezo até eu me interessei por essa infeliz!

Pois, eis que surgem na mídia esses discursos todos que tratam da liberdade de expressão das pessoas, bradando que era direito da moça mostrar a perereca na faculdade em horário de aula, que era um absurdo o machismo praticado contra a menina. Uma agressão ao seu direito de ir e vir com a perereca de fora.
Nota-se o quanto os valores estão sendo manipulados por alguns grupos sociais, o quanto os argumentos são forjados sobre uma base oca, e estão sendo aproveitados para qualquer fim, até o de defender a liberdade de uso de uma saia que mostre a genitália de uma mulher, para que essa mesma mulher se promova sobre este fato: mostrar sua genitália. E assim é fabricado mais um produto da mídia, sobre bases desonestas que defendem a liberdade de expressão, mesmo que essa liberdade de expressar a sua perereca me incomode. Problema meu, que sou intolerante a odores nauseantes.
Eu queria ver se um rapaz fosse à faculdade com o escroto de fora. O que aconteceria? O que diriam? Estuprador! Safado! Ele quer me comer, socorro!

Mas, mesmo com sua fama instantânea e sua total falta de talento para o que quer que seja, todo dia há uma notícia no Terra, Fuxico, ou algum destes sites de curiosidades inúteis, anunciando alguma imbecilidade da moça. 
O pior é que veiculam esse tipo de notícia-estrume e aí tu te perguntas: que tipo de jornal é esse? Qual o nível desses jornalistas, hein? Ou será jornaleiros, porque eles mais querem é vender notícias, associadas aos seus produtos de mídia.
E mais: quem são as pessoas com aproximadamente meio neurônio que se dispõe a ler estas notícias? 

Certo. Eu sei como funciona o esquema da imprensa marrom. Geise Arruda é um produto dessa mídia de bosta, como a expressão bem anuncia, e feia como o cão chupando manga, mas agora com a "pomba" recauchutada, segundo as notícias recentes do grande jornal Terra (que se fosse impresso serviria a calhar para outros fins).

Ai, que me importa a perereca dessa moça? Pererecas existem aos montes, e realmente não me interesso por este ramo, que de perereca já basta a minha. Então, os chatos de plantão que precisam defender tudo, até o que eles não concordam, dirão que se há esse tipo de notícia, há público, e que há espaço para todo tipo de notícias, portanto, que se busque outro site ou jornal. Ou outro mundo né? Mas então, eu pergunto: porque me parece que esse tipo de notícia imbecil está tomando conta dos meios de comunicação do país? Porque tanta gente se ocupa mais da novela do que de suas vidas reais? Porque nosso país parece estar se tornando um país de zumbis mentais?

Pena que algumas pessoas maravilhosamente criativas morrem cedo e outras, como essa moça, que como talento exibem sua perereca, surgem como macega no pântano. Não que eu esteja desejando a morte de pessoas assim, longe de mim, mas a notoriedade deste tipo de celebridade furada denota o nível cultural de nosso povo. E isso assusta.

Não vou ficar triste, não. Tenho fé de que algumas pessoas criam e criarão seus filhos segundo outros parâmetros, que não os ditados por essa lama toda chamada mídia.

Salve a alegria. Salve minha fé. Como eu gosto do silêncio.

nada como ler no banheiro pela manhã

domingo, 28 de outubro de 2012

Meu jardim

Dia moroso, baforento e quente. Aquele tipo de dia que não tem perdão: ou tu te atira em algum lugar como uma gata preguiçosa, e coloca a língua para fora, ou tu te estira no sofá quente da tua casa e põe a língua para fora, e reza. Reza para chover, e aplacar esse mormaço.

Nestes e tantos outros dias como este, acabo com aquela velha melancolia, companheira inseparável dos dias mormacentos, que me faz pensar em tudo o que tenho para fazer na vida, como um balanço do que tinha planejado e o que alcancei. Como um balanço do que sou e o que me tornei, após trinta e um anos depois de ter desembarcado neste paradeiro chamado mundo.

Mundo, mundo, vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução

Mundo, mundo, vasto mundo,
Mais vasto é o meu coração.

Carlos Drummond, com suas rimas tão doces e simples, expressava tudo o que pode uma pessoa sentir. 
Li este "Poema de Sete Faces" pela primeira vez aos sete anos, e me deliciei em suas palavras. Ficava imaginando o Raimundo, um menino de franja grossa, rosto redondo, cheio de sardas e meio emburradinho, mas emotivo e apaixonado pelas letras. E pelas horas intermináveis de contemplação ao jardim de sua mãe. As formigas em suas filas organizadas, com suas tarefas intermináveis, sempre carregando seus pedaços de folhas minúsculas, que alimentam famílias inteiras... Sua mãe com as mãos sujas de terra, rosto corado de tanto esforço, e um sorrisão no rosto, impagável.

Minha infância foi assim.

Houveram tantos outros dilemas, problemas e soluções. Dificuldades e similares. Mas meus dias de contemplação não sairão nunca de minha memória. Minha mãe, jardineira de mão cheia e de amor, recheou minhas lembranças com suas plantas maravilhosas, uma ode ao desabrochar da vida, aos seus desenlaces.
Eu ficava perambulando por entre suas dádivas de amor, suas plantinhas que floresciam e embelezavam todo o entorno de nossa casa.
Assim éramos nós, seus seis filhos. Tal como suas plantas florescíamos por entre seu entorno, sempre buscando seu aconchego, suas mãos tão poderosas que traziam conforto e carinho às suas plantas, assim como a nós. Como fui feliz nessa época. Como sou feliz agora que descobri quem sou. Por muitos anos me julgava incapaz de plantar o que quer que fosse. Mas sabia que tinha essa missão de continuar o que minha mãe começou: embelezar meu entorno com minhas mãos. 

Comecei dando à luz a este luminar em meu caminho, que se chama Sophia. Desde então criei o hábito de plantar minhas sementes de amor aqui em casa. Minha florzinha nasceu e se desenvolveu tão linda e próspera que me motivou a plantar. Se eu pude dar vida a um ser tão sábio e amoroso como é esta menina, eu sou capaz de tudo. Mas minhas plantinhas, ao contrário de minha florzinha, morriam por inanição. Eu não dava água suficiente, as esquecia. Que péssima mãe eu era, das plantinhas. Mas eis a moral: eu não me sentia mãe delas, me sentia dona, proprietária e, como tal, não as tratava com carinho mas com obrigatoriedade, eu tinha de cuidar delas, não queria cuidar.

Por um breve período, deixei de ter plantas ou de tentar plantar. Assim percebi que precisava de minhas filhas mais do que elas de mim. Preciso plantar, preciso vê-las crescerem e se desenvolverem, assim como minha filha. Preciso saber que sei cuidar delas e que elas, como retribuição, fazem do meu lar e entorno um lugar mais bonito. Todos os dias, antes de sair ou quando chego em casa as miro por alguns instantes, rego-lhes, as acaricio, converso com elas e me sinto extremamente feliz por elas existirem.
Nenhuma morre mais, nem carece de amor, ou água.

Acho que aprendi um pouco com elas, um pouco com cada amor de minha vida, que a vastidão de nosso coração não deve prender, segurar ou obrigar algo ou alguém, nem nós, porque nosso amor é ilimitado, ele só precisa de direções, não de correntes. Se o amor retorna a mim, é porque não o puxei com minha cadeia possessiva de obrigações mil, mas o atraí com minha cadeia de sentimentos de cuidado, de carinho. 
E entendi que, tal como com as plantas, não sou proprietária de ninguém, sou companheira, sou aliada, sou amiga e fiel aos que fazem meus dias mais lindos, mesmo quando me espetam com seus espinhos, mesmo quando lhes deixo sem água. 

Hoje, após tantas cabeçadas, posso dizer orgulhosa que minha vida parece um lindo jardim: meu broto, minha flor e eu, roseira do amor, esbanjando esse brio de saber que ajudei a construir esse belo e esplendoroso jardim.

meus pais, a origem do meu jardim <3 obrigada a vocês, sempre


terça-feira, 23 de outubro de 2012

Adoro um esquisitão

Basta de escutar a voz da razão, nem sempre essa voz é a mais sábia. Eu diria nunca. O que é a razão senão produto do que os outros nos dizem a vida toda? É a utilização de variáveis (fatores externos) que combinadas e calculadas resultam num produto (fator interno). Na matemática isso funciona muito bem, porque números são exatos, mas variáveis humanas não são exatas, são humanas. Esqueçam a redundância. A questão é que não é possível aplicar uma razão única a diferentes casos, com tanta diversidade de variáveis, situações e contextos. Com tanta diversidade de emoções diferentes que emanam de seres variados, alguém me diga como seria possível calcular o desenrolar de uma situação diante do fator "ser humano"? 

Por isso a razão não funciona para mim. Nem para ninguém. As pessoas insistem em aplicar suas razões para julgar os outros e as eventualidades da vida, nas situações cotidianas, tentando prever o que acontecerá com a relação recém iniciada com um novo namorado, uma possibilidade de trabalho vantajosa, ou a saída de um filho de casa, mas na realidade só o decurso dos fatos é que determinará o  desenvolvimento da história. Veja bem: o desenvolvimento, não o desfecho. O desfecho não existe. Nem a morte é um desfecho pois sempre há desdobramentos quando alguém morre. Então parem os que tentam adivinhar o que acontecerá no futuro, tentando antever o que sucederá a essa ou àquela pessoa, citando a tal frase ridícula "o mundo dá voltas" (que filosofia barata de boteco xexelento). A verdade é que nada pode ser previsto ou suposto, justamente porque as voltas que o mundo dá podem ser interrompidas por algum meteoro gigantesco que desloque o eixo da terra, ou outro fator qualquer que talvez não possa ser previsto... O fato é que sempre poderá acontecer algo inusitado que mudará o rumo de tudo o que se havia premeditado. Sempre.

Tudo bem eu também faço isso. Também enquadro as pessoas e situações. Mas me policio todos os dias, juro. Para não incorrer na atitude que tanto abomino em algumas pessoas: julgar. E isso tem até nome: classificação. Sim. Nós classificamos as pessoas segundo o que aprendemos na mídia, nos programas de TV, nos filmes, novelas, segundo o que nossos pais, familiares e amigos nos dizem, porque como eu disse no início do post, nossa opinião, nossa razão, nada mais é do que a soma da opinião dos outros. Nós é que achamos que é nossa. Por isso quando alguém se rebela e diz: chega! Eu vou pensar por mim mesmo e dane-se o que vocês acham ou deixam de achar! Isso gera tanta polêmica... Mas como aquele ali pensa que vai pensar diferente? Atrevido!

E aí você acaba vivendo meio isolado dos demais, tipo o esquisitão. Aquele que tem idéias próprias, um perigo de pessoa. Todo mundo gosta de futebol, ele não. Não lhe atrai. Todos os machões heteros curtem falar das "gostosas" do trabalho, ele não. Ele tem uma gostosa em casa, não precisa disso. Todo mundo quer ter um trabalho que ganhe bem, quer ser chefe, mandar e desmandar, bancar o bacana. Ela não. Quer descobrir o que gosta de fazer. O que lhe motiva a viver. Quer estudar matérias diferentes, especular o que lhe toca o coração, o que lhe faz sorrir. O que a tiraria da cama todos os dias, sem traumas.

Todo mundo diz que o certo é namorar, noivar, se formar, casar, comprar um apê para pagar em trinta anos, ter gato, cachorro, periquito, talvez procriar, e ele/ela sai atropelando meio mundo fazendo tudo ao mesmo tempo, muitas vezes sem querer, mas sem se importar com os rituais, sem se importar com o que dirão. 
Só vivendo e experimentando. E sentindo. E enfrentando. Um inconsequente, não ouve a "voz da razão"... 
E os donos dessa voz devem estar muito satisfeitos com sua própria vida né? Tudo resolvido, que nem comercial de margarina, ahã... me conte. 

Mas e a intuição? E se a intuição do esquisito é tão firme que diz que ele tem que viver aquilo para aprender a ser gente, ou ficar com aquela pessoa, porque é o que lhe faz bem e ponto final? Alguém tem dúvida de que esse esquisitão ou esquisitona será bem sucedido? Eu não. Até porque se tudo der "errado", na verdade já deu certo, porque o conhecimento que se extraiu das vivências não tem preço, não se compra como um canudo de faculdade particular (em alguns casos, okay?). Essa pessoa viveu, experienciou, sofreu e cresceu - se for o caso -, o que já é uma grande vitória. Assim, quanto mais fazemos o que os outros dizem, mais fugimos de nossa essência, de nossa intuição e das nossas experiências que tanto nos ensinarão a viver.

Minha intuição sempre me diz para fazer uma coisa e a razão outra. Invariavelmente escolho a intuição. E invariavelmente ela está certa.


onde a vaca vai, com certeza eu não vou atrás

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

I see naked people

Todo mundo tem seus segredinhos. Que não são tão secretos assim.

Sempre me pergunto se o que eu penso pode alguém ter pensado também, e se outras pessoas também têm essa mania de ficar elucubrando sobre devaneios e coisa e tal. Porque eu fico.

Pois, dentro desse contexto, me descobri com essa mania estranha de enxergar a realidade além das aparências, além das roupas e acessórios, o que certamente Freud deve ter explicado em seus tratados, mas euzinha ainda não descobri porque tenho esse hábito louco de imaginar como as pessoas seriam peladas.

Ai, que depravada! Diria minha vó. Óóómh... Diria um irmão. Minha mãe deitaria na gaitada. Meu pai  não diria nada, nem um assovio. Terror e pânico no recinto.

Mas voltando à situação, isso é, senão dizer patético, muito gozado. Imagine a cena: você, pessoa vestida, com suas honrarias guardadas à sete chaves, dentro de sua cueca slip ou sua calcinha estilo tanga, toda cheia de segredos "cabeludos" e "surpreendentes" para o mundo, menos para mim...
Desculpe docinho, mas eu posso sim ver-te pelado/pelada, e a visão não é nada disso que tu tenta aparentar...

Ah, quer saber? Acho que todo mundo imagina todo mundo pelado. É isso aí. Porque já houveram ocasiões em que me senti nua, nuinha em pêlo, e até enrubesci (em outra vida) quando recebi aquele olhar mais caliente, estilo "latino lover, tô te querendo", e a pessoa não tava com conjuntivite não.

E acho até mais natural esse tipo de relação onde as pessoas se vêem peladas, porque em vez de se concentrar no corpo, a pessoa foca em outros atributos, como a fala, o olhar, e tudo fica mais à mostra, natural, realístico, sem esses artíficios baratos e grotescos de "calça levanta bunda" ou "braguilha aumenta tico". A pessoa é o que é sem pudor: sua alma, seu humor, sua natureza, sua tez. Não o corpo que ela tem ou gostaria de ter, que um dia talvez tenha sido espetacular mas que inevitavelmente sucumbirá à força da natureza que tem por ordem ceder espaço para o novo, sempre.
E o novo, neste caso, não é a sua nova bunda caída mas sim a sua nova vizinha, aquela que os bobocas dizem gostosa.

Quando nós finalmente entendermos isso, e pararmos de acreditar na esperança da "eterna juventude" ou na busca do corpo perfeito, ficaremos tranquilos com nosso arcabouço de pele, gordura e ossos, que tem somente a função de projetar o que nos perpassa a mente. Nossa mente, essa sim, que deve sempre almejar a melhora constante: linhas de raciocínio mais bem definidas e seguras, tecido cerebral durinho, super malhado de tanto fazer conjecturas, sinapses rápidas e precisas, neurônios alongadinhos e aquecidos de tanto exercício...
 
Em resumo, as pessoas são o que são, pelo e não como são, logo, o corpo é uma mera formalidade.

parafraseando o saudoso apresentador Bolinha: "essa são as coisas que o povo gosta..."

sábado, 20 de outubro de 2012

Funk da vizinhança...

E eis que me vem a vontade de expor essas ideiazinhas que rondam minha cabecinha...

Então, estava eu aqui pensando com os meus botões, ou melhor dizendo fechos, por que nunca vi pessoa tão repleta de fechos como a mulher: fecho da bolsa, da bota, sandália, mochila, fecho da saia, do vestido, da calça, da nécessaire, do sutiã, do corpete, tem até fecho de calcinha... ai, ai, ai, esse parece doído viu?

Mas enfim, pensando de tanto pensar que penso, logo pensei que não entendo o que leva alguém a ouvir uma música estilo pancadão - funk do tigrão - num lindo sábado de manhã, onde a letra é mais ou menos isso aqui abaixo, olha:

"bandido tem que ter muita inteligência
e coragem pra segurar uma escopeta
não tenho medo do caverão
porque meu sangue é de Jesus Cristão"

Tá gente, confesso que esqueci totalmente a letra, meu cérebro foi condicionado para não reter todo tipo de porcaria que ouço, mas na hora fiquei estupefata com tanta imbecilidade que o cara tava cantando e, principalmente, como alguém que parece não ser do mundo do crime (como minhas vizinhas) ouve isso com tanta paz de consciência, e ainda aumenta o volume do som para que os vizinhos ouçam...

Eu queria poder dizer às pessoas que ouvem isso, que esse tipo de atitude de um traficante não é algo admirável, não vai fazer bem a ninguém, nem a ele próprio. E também que certamente ouvir essas palavras tão inspiradoras não vai tornar a pessoa que está ouvindo mais confiante de si mesma, mesmo que a letra tão absurda dê a impressão de autoridade no sentido em que o bandido se considera tão forte e inteligente a ponto de não temer nada ou ninguém, que realmente, não há como não observar que ele é "o cara".

Certamente, em mentes mais fracas, surge uma admiração por este ser tão "imbatível" que é um bandido, participante do mundo do crime, aliciador de menores, corruptor de adultos e crianças e, provavelmente, notícia de amanhã no jornal, onde aparecerá como assassinado e substituído por outro bandido, tão forte e imbatível quanto ele.

Okay, letras por letras, outro dia ouvi essa no estacionamento do supermercado, a todo volume, e meu colega de trabalho me ajudou a identificar a autoria, após eu cantar para ele com toda a emoção que essa música pede:





Hahahaha! Tive que rir, porque a letra é terrível, o nome da autora é terrível, o nível ao que a mulher se rebaixa cantando essa música é terrível, mas o troço é tragicômico, não há como não rir!
Não sei como uma mulher que se goste canta isso. Essas músicas do funk são muito depreciativas das mulheres, sempre exaltando a competição entre mulheres por um homem, um macho alfa, poderoso, dono do tráfico, bandidão. Sempre exaltando o corpo e suas habilidades sexuais como atributos principais para a conquista de um parceiro.
Será que essa mulher que aprecia esse tipo de funk (assim como um homem) se percebe atrativa somente em função de seu corpo? Do modo como infere ao seu possível parceiro sexual o jeito como trepa?
E o homem? De sua piroca maior ou mais grossa? De seus músculos torneados que o farão se comportar como um touro no sexo?

É só nisso que se baseia a atração entre um homem e uma mulher? O corpo?

Acho que não. E acho que essas pessoas ainda não se descobriram por inteiro. Ou não se admiram o suficiente para entenderem que o corpo não é absolutamente nada sem a mente.
Uma boa conversa, troca de idéias, discussões sem agressividade, mas simplesmente pelo ato de contrapor idéias e assim aprender com a discussão, ver um bom filme juntos, conversar sobre este filme, ouvir uma boa música, ler e depois compartilhar o pensamento que se depreendeu da leitura.

Enfim, inúmeras situações que nos permitem atrair alguém ou se sentir atraído e, de certa forma tem a ver com o corpo, mas não da forma que nos projetam em muitas novelas, filmes, etc, mas sim da forma como percebemos nossas sensações, como quando fazemos trocas positivas com algumas pessoas e outras não e isso resulta em um sexo/amor gostoso, livre dessas amarras chamadas estereótipos: "mulher melão" versus "homem pepino".

Então, tá ficando muito cabeça esse papo, e acho que o momento não pede um "papo cabeça".
Vou pegar meu fuzil e colocar minha cinta-liga que tá na hora do sexo da tardinha... (rsrsrsr!)


eu e minhas amigas

Vamos rir?

Engraçado é rir do nada, feito louca, demente, rir de si mesma, fazer pirraça do que é monótono, de quem não se permite rir.

Mas há que se valorizar a chatice, sem ela não se poderia rir estupidamente, pois se houvesse somente riso, como saberíamos o valor dele? Sempre dos opostos é que extraimos o valor de algo, da antítese de emoções geradas por cada extremo. E nessas de rir de tudo é que tantas vezes me estrepei, e passei a ideia de leviana, quando na verdade estava tentando dissimular internamente meu desgosto, minha raiva.

E dissimulo tão bem que convenço a mim mesma e esqueço das chatices, passo adiante, batido, nem tô para a irritação alheia, o que me importa é rir, desesperadamente, me apegando a isso como se fosse meu copo d'água no deserto, porque quanto mais rio mais me aproximo da alegria de não me importar com nada, nem comigo mesma. Minha seriedade, minha disposição em notar os gestos e olhares dos outros, sua criticidade, seu julgamento sobre o meu rir.

Iêba! Viva rir! Viva a gargalhada! Salve a alegria! O motivo deste blog!



Imagine se o ser humano não pudesse ou não soubesse rir? O que seria desta pobre gente do mundo inteiro, sem poder dar uma risadinha? Desculpe, mas acho que poucas pessoas pararam para analisar isso, de o quanto somos felizes pelo fato de podermos rir, e de o quanto nossa natureza é sábia pois nos faz produzir um liquidozinho gostoso que nos dá prazer quando a gente ri! Oxi! Se rir não é fundamental para sobreviver, então por favor alguém não me diga que comer feijão é. Por que de comer feijão algumas pessoas não gostam, mas de rir... ah... nem preciso responder né? 

E Charles Darwin que explique melhor esse lance de evolução, onde que começamos a rir de verdade; em que situação se deu essa dádiva do nosso ser de mostrar os dentes (ou a ausência deles) de forma despreocupada e maravilhosa, sem nada dever a ninguém, somente a expressão do gozo que provoca a alegria, esse impulso de se sacudir todo, esse movimento involuntário do maxilar e do plexo solar que descarrega qualquer energia ruim que por ventura possa se aproximar... (identificou algo?? Não, não é pura coincidência...).

Salve a alegria!

Então, quem ainda não se convenceu do dom que tem, que comece a rir já, por favor!
E sai já pra lá com esse "Brucutu"!