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domingo, 28 de outubro de 2012

Meu jardim

Dia moroso, baforento e quente. Aquele tipo de dia que não tem perdão: ou tu te atira em algum lugar como uma gata preguiçosa, e coloca a língua para fora, ou tu te estira no sofá quente da tua casa e põe a língua para fora, e reza. Reza para chover, e aplacar esse mormaço.

Nestes e tantos outros dias como este, acabo com aquela velha melancolia, companheira inseparável dos dias mormacentos, que me faz pensar em tudo o que tenho para fazer na vida, como um balanço do que tinha planejado e o que alcancei. Como um balanço do que sou e o que me tornei, após trinta e um anos depois de ter desembarcado neste paradeiro chamado mundo.

Mundo, mundo, vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução

Mundo, mundo, vasto mundo,
Mais vasto é o meu coração.

Carlos Drummond, com suas rimas tão doces e simples, expressava tudo o que pode uma pessoa sentir. 
Li este "Poema de Sete Faces" pela primeira vez aos sete anos, e me deliciei em suas palavras. Ficava imaginando o Raimundo, um menino de franja grossa, rosto redondo, cheio de sardas e meio emburradinho, mas emotivo e apaixonado pelas letras. E pelas horas intermináveis de contemplação ao jardim de sua mãe. As formigas em suas filas organizadas, com suas tarefas intermináveis, sempre carregando seus pedaços de folhas minúsculas, que alimentam famílias inteiras... Sua mãe com as mãos sujas de terra, rosto corado de tanto esforço, e um sorrisão no rosto, impagável.

Minha infância foi assim.

Houveram tantos outros dilemas, problemas e soluções. Dificuldades e similares. Mas meus dias de contemplação não sairão nunca de minha memória. Minha mãe, jardineira de mão cheia e de amor, recheou minhas lembranças com suas plantas maravilhosas, uma ode ao desabrochar da vida, aos seus desenlaces.
Eu ficava perambulando por entre suas dádivas de amor, suas plantinhas que floresciam e embelezavam todo o entorno de nossa casa.
Assim éramos nós, seus seis filhos. Tal como suas plantas florescíamos por entre seu entorno, sempre buscando seu aconchego, suas mãos tão poderosas que traziam conforto e carinho às suas plantas, assim como a nós. Como fui feliz nessa época. Como sou feliz agora que descobri quem sou. Por muitos anos me julgava incapaz de plantar o que quer que fosse. Mas sabia que tinha essa missão de continuar o que minha mãe começou: embelezar meu entorno com minhas mãos. 

Comecei dando à luz a este luminar em meu caminho, que se chama Sophia. Desde então criei o hábito de plantar minhas sementes de amor aqui em casa. Minha florzinha nasceu e se desenvolveu tão linda e próspera que me motivou a plantar. Se eu pude dar vida a um ser tão sábio e amoroso como é esta menina, eu sou capaz de tudo. Mas minhas plantinhas, ao contrário de minha florzinha, morriam por inanição. Eu não dava água suficiente, as esquecia. Que péssima mãe eu era, das plantinhas. Mas eis a moral: eu não me sentia mãe delas, me sentia dona, proprietária e, como tal, não as tratava com carinho mas com obrigatoriedade, eu tinha de cuidar delas, não queria cuidar.

Por um breve período, deixei de ter plantas ou de tentar plantar. Assim percebi que precisava de minhas filhas mais do que elas de mim. Preciso plantar, preciso vê-las crescerem e se desenvolverem, assim como minha filha. Preciso saber que sei cuidar delas e que elas, como retribuição, fazem do meu lar e entorno um lugar mais bonito. Todos os dias, antes de sair ou quando chego em casa as miro por alguns instantes, rego-lhes, as acaricio, converso com elas e me sinto extremamente feliz por elas existirem.
Nenhuma morre mais, nem carece de amor, ou água.

Acho que aprendi um pouco com elas, um pouco com cada amor de minha vida, que a vastidão de nosso coração não deve prender, segurar ou obrigar algo ou alguém, nem nós, porque nosso amor é ilimitado, ele só precisa de direções, não de correntes. Se o amor retorna a mim, é porque não o puxei com minha cadeia possessiva de obrigações mil, mas o atraí com minha cadeia de sentimentos de cuidado, de carinho. 
E entendi que, tal como com as plantas, não sou proprietária de ninguém, sou companheira, sou aliada, sou amiga e fiel aos que fazem meus dias mais lindos, mesmo quando me espetam com seus espinhos, mesmo quando lhes deixo sem água. 

Hoje, após tantas cabeçadas, posso dizer orgulhosa que minha vida parece um lindo jardim: meu broto, minha flor e eu, roseira do amor, esbanjando esse brio de saber que ajudei a construir esse belo e esplendoroso jardim.

meus pais, a origem do meu jardim <3 obrigada a vocês, sempre