sábado, 15 de dezembro de 2012

De pai para filho

Faz tempo que eu não me emocionava tanto. 
Assisti ao filme Gonzaga: de pai para filho e chorei, chorei, chorei. Parei de chorar, saí do cinema, fui para o carro e chorei, chorei, chorei. Cheguei em casa, entrei pela porta (que pela janela é difícil) sentei no sofá e chorei, chorei e chorei um pouquinho mais.

Que história bem contada, que atores bons, que direção, que ângulos de imagem, que diálogos, que emoção esse filme transmite. A história é real, e devo dizer que sempre que uma história é real, ou é anunciada como tal, crio uma expectativa superior em relação à obra. E nesse caso, minha expectativa foi totalmente preenchida e acrescentada, pois eu conhecia muito pouco da história do Gonzagão e Gonzaguinha, e sempre me perguntei o porquê de sua aura de tristeza profunda, mesmo quando ele cantava um sambinha dos mais felizes. Não tinha idéia do que ele havia passado em sua vida particular.

Realmente não acompanhei a vida do artista Gonzagão, muito menos do pai que ele foi (só um filho para atestar), mas adorei ver o crescimento e desenrolar de seu talento, como foi contado neste filme. Suas dificuldades financeiras que o atrasavam para o alcance do sucesso mas que também lhe motivaram a buscá-lo, assim como entraves morais da sociedade da época, como quando os donos da rádio em que ele começou a cantar não queriam ouvir sua cantoria mesmo que o público se empolgasse diante de sua música, já que se tratava de uma música folclórica, pouco admirada pelos críticos do momento. Inclusive seus bloqueios internos que o impediam de admirar a música de seu povo, música esta que lhe fez aprender a tocar o acordeão desde a infância, que lhe despertou para esse dom, mas que também lhe fez renegá-la, diante da miserabilidade que lhe trazia à tona a infância humilde, a falta de tudo, desde o que alimenta ao corpo até o que alimenta ao ego, mas nem por isso menos talentosa, vibrante ou alegre.

Os estados de  miséria e riqueza, apesar de antagônicos, produzem o mesmo efeito de entorpecer as pessoas, embotar sua visão de mundo, suas percepções das pessoas que as cercam e das necessidades reais de cada um. Um, pela ausência que provoca necessidade e te faz querer as coisas de forma imediata, sem notar outras maiores, mais estáveis e duradouras, mas que te faz compartilhar o pouco que tens com teu semelhante, como forma de aplacar a tua própria miséria. Outro, pela fartura que te impede de notar as necessidades alheias, as pequenas misérias das pessoas que te rondam e te espreitam, tornando-te insensível aos problemas dos outros e muitas vezes egoísta, ao menor sinal de perderes essa riqueza, de perderes tua segurança.

Assim como tudo na vida, podemos escolher olhar outras facetas da riqueza ou da miséria, como a alegria despertada por pequenas conquistas, e que provavelmente são muito mais passíveis de surgirem num ambiente de pobreza; os detalhes de escassez (que só a pobreza te faz ver) e que te tornam mais metódico ao esconder falhas, tapar furos, ou desenvolver a malandragem de ocultar erros e ressaltar proezas.
Na riqueza existe a possibilidade de se acessar mais informações, por haverem mais recursos de acesso como livros, teatro, cinema, viagens, lazer e outras formas de entretenimento que custam dinheiros preciosos, o que é inviável para quem não tem nem para o básico. Mas de nada valem os recursos sem o tutano que te faça meditar sobre as informações, por isso vemos tanta gente com grana e tão ignorante.

Enfim, este filme é uma pérola cinematográfica e não me considero capaz de descrevê-lo tal como ele foi feito: brilhantemente. Até porque a impressão de cada pessoa é diferente e subjetiva e acompanha o juízo de cada ser, mas minha impressão neste filme é de que devemos sempre tentar dialogar com nossos familiares, ou com àqueles de quem guardamos mágoas, e se não expressarmos tudo aquilo que nos incomoda a essas pessoas que nos fazem nos sentirmos tão mal, seremos ultrapassados pela torrente de atitudes que essas pessoas invariavelmente cometem e nos deixam tão magoados. Não calar-se, não quietar-se, eis o segredo. Enfrentar, esbravejar e mandar à merda se preciso for, mas não ficar quieto, jamais. Dizer o que te incomoda, nem que isso seja produto da tua cabeça. A pessoa que me convença de que tudo que ela fez é produto meu, e não das suas atitudes.

Também preciso dizer que me emociona o fato de alguém demonstrar sentir amor tão grande por um pai que parecia não amá-lo, como o Gonzaguinha por seu pai.
Amar alguém que nos ama é fácil, tranquilo e no mínimo esperado. Agora: amar alguém que não se importa contigo, se estás bem ou mal, que parece mais querer te ver pelas costas, sendo teu próprio pai, ou quem sabe tua mãe... isso é complicado.

Que filme! Recomendo aos que gostam de uma bela história de amor.

all you need is love

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Sonhos molhados

Sonhos são bizarros. E são reais.

Você sonha, acorda, lembra da situação e pensa: " mas foi tão real... ufa... foi só um sonho.". Então, no decorrer do dia você tenta relembrá-lo e lá se foi ele, pras cucuias. O que restou foram leves lembranças.

Os sonhos parecem ser projeções de nossa mente, medos e inseguranças reais que exercitamos em nossas mentes diariamente e que, ao dormir, vivemos intensamente em formato de ópera. Mas tem uns sonhos que são mucho loucos, eu nem chegaria a pensar tais coisas na verdade. Eu nem pensaria que pensei nisso, oras! Aí, descubro feliz que minha mente é criativa pacas, mas pena que ela só se manifesta quando eu tô dormindo... provavelmente por isso muitos cientistas usam o método de entrar em estado de sonolência para terem ideias...

Esse negócio da mente vai muito além do que se cogita. A mente te manda fazer coisas que nem tu mesmo te dá conta, como se defender quando se é atacado ou atacar quando nem mesmo se é agredido. Não existem regras, existem mentes que aprenderam a reagir cada uma à sua forma, à luz de sua vivência. Cada um tem a mente que desenvolveu, isso é óbvio, mas não dá pra arriscar qual vai ser a atitude dessa ou daquela pessoa, nem a nossa mesma... Na realidade vivemos tenteando os outros. Eu tenteio aqui, o outro tenteia lá. Dependendo do meu objetivo ou o da pessoa, não tenteamos nada, esperando a contra-resposta e todo mundo fica paradão que nem bobo, vendo um terceiro tentear e se dar bem.

Às vezes estamos tão absortos em nossos argumentos que não vemos o óbvio. Ele dança no nosso nariz, nos chama de otários e então já não é mais o mesmo quando resolvemos acordar do estupor em que nos encontramos. O óbvio então é outro óbvio. Ele se transformou, e foi modificado pelas nossas atitudes e as atitudes dos que receberam as nossas. Nossas projeções, acredito eu, baseiam-se nesse jogo de tentear aqui e ali, pensar como tudo ficaria se tomássemos essa atitude ou aquela outra, como no jogo de xadrez em que várias jogadas são possíveis e tem suas consequências boas ou ruins. Mas isso é questão de prever movimentos, e existem regras para o movimento de cada personagem no xadrez. Com pessoas, podemos até pensar que existem regras morais, éticas ou sociais, mas cada pessoa age como melhor lhe manda a mente. Como melhor lhe parece a ética, sua ética. Podemos tentear movimentos, mas prever com inteira certeza, jamais.

Na verdade quando espero um movimento, estou projetando ele na minha mente: ó, eu vou fazer isso e aquela pessoa vai fazer aquilo, com base em todas impressões que guardei daquela pessoa. Então eu reajo antes que a pessoa aja, e aí dá a merda. Parece assim: se eu espero que a pessoa faça o bem e ela caga (usando de termos chulos, método mnemônico criado por Mônica) eu só vou esperar/projetar que ela cague para sempre. Mas aí me lembro do Pai Nosso, de perdoar os outros, blá, blá, blá, e tento várias vezes dar a chance de ela não cagar novamente mas ela segue cagando, então eu decido que não vou mais dar a chance de ela cagar comigo. Ponto.
Sabendo de antemão com quem eu lido, após cagadas sucessivas, simplesmente elimino esse indivíduo do meu rol de pessoas. Sim, porque só Cristo pra oferecer todas faces... e não sei se adiantou não, arrisco que se ele voltasse hoje, faria diferente. Paz e amor, sim, ser babaca para todo o sempre de alguém que se nega a aprender, não!

Como eu já espero o "mal" daquela pessoa, por que ela é famosa por cagar, eu já nem me esforço em dar chances. Isso é engraçado, né? Por que, será que essa pessoa age como o esperado, ou será que eu espero tanto que ela cague que eu projeto isso em minha mente e minhas atitudes ensejam essa pessoa a cagar? Será que na verdade ela está cagando porque eu espero isso dela e na verdade essa cagada não é tão molhada assim? Talvez uma análise laboratorial resolva. É cocô ou não é?
Talvez seja tudo um mal entendido, cagadas por cagadas, cada um tem a sua. Guaibão que o diga.
Tudo é questão de ponto de vista... ou seria de privada?

Acho que tô ficando recursiva. E o sonho não acabou...

tentando enxergar o óbvio