terça-feira, 26 de maio de 2015

Pureza

Tem um lance meu com mendigos que eu ainda não consegui destrinchar...

Ontem eu tava na parada de ônibus, com a minha filhota Olívia a tiracolo, naquele negócio chamado sling, em que a criança fica maravilhosamente pendurada enquanto a mãe fica com as mãos livres pra fazer o que quiser.

Então, tava eu ali esperando o bus, quando um mendigo se aproxima, pedindo dinheiro à todos, podre de sujeira, chegava a ter uma luva preta de restos de tudo, na boca tinha um resto de comida, e o cheiro tava demais, exalava todo tipo de fedor... bah, ele tava tri fedorento.

De repente ele pára na minha frente. Cutuca as costinhas da Olívia, que no caso tá de frente pra mim, grudadinha no meu colo, como uma macaquinha. Ele a cutuca com aquele dedão maravilhoso, cheio de cocô seco e comida podre também. Bah, um nojo. Mas não consigo afastar ela. Me parece cruel privar o mendigo de admirar uma criancinha. Ela é tão linda. Todo mundo admira ela. Eu babo olhando ela babando...
Enfim, como ele não é correspondido com a cutucada, segue a investida chamando: "Bebezinha, só quer ficar no colinho né?", e eu respondo: "Esse é o melhor colo do mundo.".

Daí, percebo os olhares das pessoas na parada.

Ele segue chamando a bebezinha, e eu viro a Olívia para ele, para que ela possa olhá-lo de frente, assim como ele. Ele fica falando com ela, com a boca cheia de resto de comida pendurada... depois de alguns segundos ela finalmente ri para ele. Então ele ri, eu rio, pronto: compartilhamos uma alegria.

Ele vai embora assim como chegou: do nada, sem se anunciar ou se despedir. 
Espero que ele tenha sentido algo muito bom naquele momento.
Enquanto todos o repudiavam, a neném sorriu. E a mãe da neném não o tratou mal, deu atenção a ele. Dei atenção ao afeto que ele estava demonstrando por ela.

Diante de tanta podridão no mundo, podridão que há dentro das pessoas, a podridão externa daquele mendigo me pareceu uma carapuça para algo muito limpo. Coberto de miséria e repulsa de todos os lados, principalmente de si mesmo, ele conseguiu parar para se encantar um pouco com uma criança. E isso por si só mostra a pureza que há dentro dele.

Apesar de na hora ter sentido um pouco de nojinho do aspecto todo dele e da possibilidade de ele encostar as mãos sujas na minha neném, ainda assim encontrei dentro de mim um pouco de humanidade ao dividir minha alegria com ele. Ele me deu algo bem maior, acho. Ele me fez ver que todos nós podemos estar naquela situação e ainda assim sermos amáveis. Ele me fez ver que podemos estar limpinhos e com muita coisa ruim dentro de nós. Não são todas as pessoas que retribuem um sorriso, ou que retribuem o sorriso de um neném. Existem pessoas que não querem contato com outras pessoas, e são muito frias quanto a sentir. E, sobretudo: praticam muitos males em nome dessa frieza, com a desculpa de que estão se protegendo da sociedade maldosa e ruim.

Essas pessoas podem ter um cheiro corporal maravilhoso, tomam muitos banhos por dia, tem perfumes maravilhosos armazenados em suas prateleiras, mas o senso de humanidade e afeto pelos demais é fedorento. Fede a medo. Fede a desprezo. Fede a morte em vida.

Obrigada mendigo, por me fazer sentir.


a pureza de se encantar com coisas simples